Para começo de conversa, as notícias da Zero Hora transmitem sempre uma opinião no sentido de manutenção do status quo. Eu diria que é um jornal de velho. É aquela leitura para o idoso aposentado, com seus 70 anos, encontrar seu paraíso retórico, pero falacioso demais para os olhos de qualquer pessoa mais jovem ou jovial.
Sim, há velhinhos jovens, e não me refiro a estes. Refiro-me ao respeitável desembargador aposentado, ao ilustríssimo doutor médico formado numa UFxx nos anos 50, quando nem se pensava na instauração de cotas de inclusão social. O cidadão já era classe média alta e, como recompensa, estudava de graça numa universidade para o bem da imobilidade social. Vivíamos numa Índia de retórica liberal. Castas disfarçadas de liberdade. Operários que sempre seriam operários, por mais que se esforçassem. Com alguma sorte e muito esforço, cursariam um técnico em edificações no Parobé e seriam recompensados com migalhas de respeitáveis engenheiros civis; estes, hoje simpáticos e rechonchudos velhotes leitores da ZH.
É esse o público-alvo da Zero Hora. Eu costumo ir todas as manhãs ao Café do Mercado, geralmente na filial do Cine Victória. O local é um reduto de velhotes aposentados e jovens com hábitos de velhotes, como eu. Com eles, compartilho o hábito, mas não a opinião. À disposição, os três jornais de maior circulação no RS: Correio do Povo, o Jornal do Comércio e a Zero Hora. O Sul não conta, pois é um copy-paste da internet, é um Google News impresso para aqueles que resistem ao computador.
Antes do Café do Mercado, eu não era um ávido leitor de jornais impressos. Preferia o dinamismo do Google News ou mesmo entrar em versões online do Estadão, JB e até ZH. Mas mudei; hoje, acho a fluência da versão impressa bem interessante, além de não ter aquela poluição de notícias repetidas da Reuters, que é o que se encontra nas versões online dos jornais.
Desde o primeiro momento, simpatizei com o JC. Primeiro, porque embora seja um jornal voltado para o capitalismo, comércio e finanças, é uma leitura muito menos reacionária do que a ZH. As opiniões parecem mais claras, não há disfarces de imparcialidade e prefiro um reacionário declarado do que um enrustido.
O problema do impresso é o canal de volta, ou seja, a interação do leitor com a leitura, imprescindível para quem se adaptou à era da informação. Um jornal moderno não termina na publicação, ele vive um ciclo constante de interação com o leitor, e nisso a Zero Hora também peca.
Ao tentar comentar uma notícia, sou convidado a me cadastrar. Beleza, tenho de me identificar, pois é fácil atirar pedras e manter-se no anonimato. No entanto, duas coisas são inadmissíveis: um limite de trezentos caracteres, ridiculamente pequeno para uma argumentação consistente. São praticamente dois torpedos de celular. A segunda coisa é a censura. Para a minha opinião ser publicada, preciso aguardar uma moderação. Ao menos, meu comentário deveria ser publicado no ato e moderado depois, mas não o contrário. Afinal, a Zero Hora não sofre censura para ir às bancas. Censura no dos outros é liberdade de expressão.
Por essas e outras, sempre que vou ao Café do Mercado, quando o JC e o Correio estão sendo ocupados por outros frequentadores, não consigo ir muito além das primeiras páginas da ZH. É um jornalzinho escroto, com jornalistas que devem sentir-se no mínimo violentados por escrever tais atrocidades (sim, tem muita gurizada lá que eu duvido ter vontade de redigir sob aquele viés editorial).
Pronto, agora estou com a alma lavada. E amanhã preciso chegar cedo no Café do Mercado para não sobrar só a Zero (à esquerda) para mim.